E a Bíblia tinha razão...WERNER KELLER


José foi, pois, conduzido ao Egito, e Putifar, egípcio, camarista de faraó e general do Exército, comprou-o aos ismaelitas, que o tinham levado (Gênese 39.1).
A história de José, que foi vendido por seus irmãos e enviado para o Egito e, mais tarde, após tornar-se grão-vizir, reconcilia-se com eles, é indu¬bitavelmente uma das histórias mais belas da literatura mundial.

Pelo que, passados muitos dias, lançou sua senhora seus olhos sobre José, e disse: Dorme comigo. Mas ele, não consentindo de modo algum..." (Gênese 39.7, 8). Quando o marido voltou para casa, ela disse: "Aquele servo hebreu, que trouxeste, veio ter comigo para fazer zombaria de mim" (Gênese 39.17).

"Bem Aquiba", disseram sorrindo os egiptólogos ao fazerem o pri¬meiro estudo do "Papyrus Orbiney". O que eles decifraram naqueles hieróglifos foi uma história muito lida do tempo da décima nona dinastia, com o discreto título de "A história dos dois irmãos":

"Era uma vez dois irmãos... O mais velho chamava-se Anúbis e o mais novo, Bata. Anúbis possuía casa e esposa, e seu irmão mais novo morava com ele como se fosse seu filho. Levava os rebanhos ao campo, conduzindo-os para casa à noite, e dormia com o gado no curral, Quando chegava o tempo da lavoura, os dois irmãos trabalhavam juntos nos campos. Uma vez, havia alguns dias que estavam no campo e faltou-lhes grão. Então o irmão mais velho disse ao irmão mais novo:
— Corre e traze grão da cidade!
O irmão mais jovem encontrou a mulher do irmão penteando-se e disse-lhe:
— Levanta-te e dá-me grão a fim de que eu possa voltar correndo para o campo. Pois meu irmão disse: 'Anda depressa e não te detenhas!'
Carregou-se com trigo e cevada e saiu com seu fardo... Então disse-lhe ela:
— Tu és muito forte! Diariamente vejo a tua força... Vem! Deite-mo-nos juntos por uma hora! Será agradável para ti. E eu te farei bonitas roupas.
O jovem ficou furioso qual uma pantera do sul... por causa das palavras malignas que ela dissera. Respondeu-lhe, porém:
— Que grande vergonha isso que me disseste! Não me tornes a dizer semelhante coisa. E assim eu também não direi a ninguém...
Levantou a sua carga e partiu para o campo... A mulher, porém, teve medo por causa do que falara. Apanhou gordura e preparou-se de maneira a parecer que fora maltratada por um atrevido. O marido... encontrou a mulher deitada, doente como por efeito de maus-tratos... Então disse-lhe o homem:
— Quem falou contigo? Ela respondeu-lhe:
— Ninguém... a não ser teu irmão mais jovem. Quando ele veio buscar grão... encontrou-me só e disse-me: 'Vem, vamos ficar deitados uma hora! Solta o teu cabelo'... Mas eu não lhe dei ouvidos. Respondi-lhe: 'Não sou porventura como se fosse tua mãe? E teu irmão mais velho não é como se fosse teu pai?' Ele ficou com medo e bateu-me para que eu não te contasse. Se o deixares viver, eu morrerei.
Então o irmão ficou furioso qual uma pantera do sul. E mandou afiar sua faca... para matar seu irmão mais jovem..."
Até parece que estamos vendo os cortesãos do faraó cochichando discretamente sobre a história. A novela agradou. Os problemas sexuais e a psicologia feminina, milhares de anos antes de Kinsey, já eram interessantes.

A história de uma adúltera, urdida numa novela egípcia, seria o mode¬lo da história bíblica de José? Sobre os prós e os contras discutiram os sábios, em face do documento chamado "Papyrus Orbiney", até muito depois da passagem do século. Com exceção da Bíblia, faltava todo e qual¬quer vestígio sobre a estada de Israel no Egito. Historiadores e professores de teologia falavam sobre a "lenda de José". De uma terra como o Egito era de esperar documentação contemporânea sobre o acontecimento de que fala a Bíblia. Pelo menos no que diz respeito a José. Pois ele foi grão-vizir do faraó e, portanto, um homem poderoso no Nilo.
Nenhuma nação do antigo Oriente nos transmitiu a própria história com tanta fidelidade como o Egito. Até 3000 anos a.C, podemos acompa¬nhar quase sem uma falha os nomes dos faraós, conhecemos a sucessão de dinastias do antigo, do médio e do novo império. Nenhum outro povo traçou com tanta precisão os acontecimentos importantes, os feitos dos soberanos, suas campanhas, as construções de seus templos e palácios, bem como sua literatura e poesia.
Mas, nesse caso, o Egito não deu uma só resposta aos pesquisadores. Não só eles não encontraram nada sobre José, mas, mais importante ainda, não descobriram qualquer documento ou monumento sobre esse período. As informações quase ininterruptas sobre séculos remotos cessam brusca¬mente por volta do ano 1730 a.C. A partir de então, envolve o Egito a mais profunda escuridão. Só em 1580 a.C. ressurgem testemunhos contemporâ¬neos. Como explicar a falta de toda e qualquer notícia sobre um período tão longo, sobretudo a respeito de um povo e uma nação tão civilizados?
Uma coisa inconcebível e monstruosa acontece na terra do Nilo por volta de 1730 a.C. De repente, como um raio caído do céu sereno, irrom¬peram no país guerreiros em carros velozes como flechas, colunas intermi¬náveis envoltas em nuvens de poeira. Nas fortalezas das fronteiras, ressoava dia e noite o tropel de cavalos, reboava através das ruas das cidades, nas praças dos templos e nos magníficos pátios dos faraós. E antes que os egípcios percebessem, havia acontecido: sua terra estava conquistada, de¬vastada, vencida. O gigante do Nilo, que nunca antes em sua história vira conquistador estrangeiro, jazia por terra, acorrentado.
O domínio dos conquistadores começou com um banho de sangue. Os hicsos, tribos semitas de Canaã e da Síria, desconheciam a piedade. No ano fatídico de 1730 a.C, encerram-se bruscamente os mil e trezentos anos de domínio das dinastias. O médio império dos faraós esfacelou-se sob o assalto do povo asiático, o "soberano de terras estrangeiras". Era isso o que significava o nome hicso. A recordação dessa catástrofe política permaneceu vivida na memória do Nilo, como o demonstra a emocionante descrição que dela faz o historiador egípcio Mâneto: "Havia então um rei nosso chamado Timaios. Foi no seu reinado que isso aconteceu. Não sei por que Deus estava descontente conosco. Surgiram de improviso homens de nascimento ignorado, vindos das terras do Oriente. Tiveram a audácia de empreender uma campanha contra nossa terra e subjugaram-na facilmente sem uma única batalha. E depois que haviam submetido nossos soberanos ao seu poder, incendiaram barbaramente nossas cidades, destruíram os templos dos deuses. E todos os habitantes foram tratados cruelmente, pois mataram uma parte e levaram os filhos e as mulheres de outros como escravos. Por fim, elegeram rei um dos seus. O nome dele era Salatis, vivia em Mênfis, e impôs tributo ao Alto e ao Baixo Egito e instalou guarnições em lugares convenientes para ele... e quando encontrou, no distrito de Sais, uma cidade adequada para os seus fins, que ficava a leste do braço do Nilo, junto a Bubaste, e se chamava Avaris, reconstruiu-a e reforçou-a grandemente com muralhas, erguidas ao seu redor, e com uma força de duzentos e quarenta mil homens que aí instalou para defendê-la. A essa cidade de Salatis ele ia todos os verões, em parte para colher seu trigo e pagar aos seus soldados, e em parte para treinar seus homens de armas a fim de incutir terror nos seus inimigos".
Avaris é a cidade que com outro nome representou um papel impor¬tante na história bíblica. Avaris, mais tarde chamada Pi-Ramsés, é uma das cidades onde Israel sofreu escravidão no Egito! (Êxodo 1.11)
A história bíblica de José e a estada dos filhos de Israel no Egito têm lugar no turbulento período do domínio dos estrangeiros hicsos no Nilo. Não admira, pois, que não chegasse até nós qualquer testemunho egípcio contemporâneo a respeito. Entretanto, há provas indiretas da autenticidade da história de José. A descrição bíblica do ambiente histórico é autêntica, autêntica até o detalhe do colorido egípcio. A egiptologia comprova-o com inúmeros achados.

Os ismaelitas, mercadores árabes, levavam plantas aromáticas e espe¬ciarias para o Egito, onde venderam José (Gênese 37.25). Havia uma ávida procura desses artigos na terra do Nilo. Eram usados no culto divino, queimando-se as ervas aromáticas nos templos à guisa de incenso. Os médicos precisavam delas para curar os enfermos, e os sacerdotes, para a embalsamação dos mortos ilustres.
O egípcio a quem José foi vendido chamava-se Putifar (Gênese 37.36). Era um nome comum no país. Em egípcio escrevia-se "Pa-di-pa-Rê", ou seja, "o enviado do deus Rê".
A elevação de José a vice-rei do Egito é descrita na Bíblia com um rigor quase protocolar. José é revestido das insígnias do seu alto cargo, recebe o anel, o selo do faraó, um precioso manto de linho e um colar de ouro (Gênese 41.42). Foi exatamente assim que os artistas egípcios representaram em quadros murais e relevos essas investiduras solenes.
Como vice-rei, José sobe ao "segundo coche" do faraó (Gênese 41.43). Na melhor das hipóteses, isso poderia referir-se à "época dos hicsos", pois o veloz carro de guerra foi introduzido no Egito somente nos tempos dos "soberanos de terras estrangeiras", ou, presumivelmente, ainda pouco antes de sua expulsão e do advento do "Novo Reino". (Segundo as pesquisas mais recentes, sua introdução resultou da transmissão do seu uso de povo para povo.) O "modelo de luxo" do veloz carro de guerra era o carro cerimonial, como o usado posteriormente pelos soberanos durante o Novo Reino.

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